José Teófilo Duarte estava em Nova York no dia do ataque às Torres Gémeas e escreve este texto no Blogoperatório.
Estava a pouca distância do WTC quando os aviões mudaram a rota. Tinha andado por lá na véspera. Assisti às primeiras reacções nas ruas. Ouvi as notícias em rádios de automóveis que paravam para disponibilizar a informação. Reparei na rapariga que ligava, desesperada, para o namorado que não respondia. Comovi-me com o seu pranto quando percebeu o que lhe tinha acontecido. Cruzei-me com as testemunhas mais próximas cobertas pela poeira da derrocada: autênticas estátuas caminhantes em incrédulo desalento.
Ninguém estava a perceber muito bem o que tinha acabado de suceder. Alinhávamos hipóteses: ataque terrorista ganhou logo terreno. E agora? Tinha voo de regresso marcado para esse dia. Esquece: é esperar e estar atento. Comprar jornais, ir para Central Park perceber a vida da cidade para além da morte, voltar ao hotel, ver noticiários televisivos: "está o Bush na televisão", nada de novo, caminhar por Times Square. Muita gente na rua. Conversamos.
Somos todos novaiorquinos. A vida volta com revolta. Entretanto vamos percebendo comportamentos. Por exemplo: Bush preferiu pairar nas alturas durante horas. Se calhar não estava a perceber nada. E tinha medo. É legítimo.
Regresso passado cinco dias. Era domingo. Foi bom regressar, mas vou querer voltar a Nova Iorque. Ainda não aconteceu.
Já em Portugal, há uma estação de televisão que me elege "o primeiro português regressado". Houve entrevista. Cantores pimba em antecipação.
Quem me manda meter com foleiros? Não gostei. Arrependi-me, mas pronto.
Agora passaram cinco anos. Percebemos que Bush não percebeu nada. E parece que agora é que começa o debate a sério sobre as consequências do atentado. Depois de graves consequências provocadas. Pode ser que um dia a gente perceba. Pelo menos percebemos muita coisa antes de Bush. Mas isso não é nada bom.
JTD
Em tempos de minha vida, num século de liberdade tanta, jamais pensei que um blog subsistisse de transcrições apenas. Será que vale a pena pregar de novo aos peixes para lhes ensinar como se faz um sermão?
Afixado por: Padre António Vieira em setembro 12, 2006 12:17 AMO senhor padre A.V. não percebeu ainda - ou não conseguirá nunca - o nome deste blog.
Paciência...
Há muita coisa que os padres não percebem. Como tal, preferem dar sermões. Quem ainda estiver disposto a aturá-los que os ature.
Afixado por: anti-clerical em setembro 12, 2006 07:05 PMPor que será que aparecem sempre uns Bin-Laden a tentar desmerecer o trabalho dos outros?
O Dizer Bem é um blog que põe em equação muitos temas pertinentes, permitindo que cada um os comente a bel talante, segundo a sua perspectiva e sem censura prévia.
Cada texto colocado, é como se fosse uma metáfora tão ao gosto do Padre António Vieira que foi sem dúvida um grande pregador.
O seu Sermão de Santo António aos Peixes, escrito há quatrocentos anos atrás, ainda hoje se mantém actual, fazendo-nos acreditar que foi escrito propositadamente para a entrada do novo milénio, porque se adapta perfeitamente à nossa sociedade.
A sua prosa é vista como um modelo de estilo vigoroso e lógico, onde a construção frásica ultrapassa o mero virtuosismo barroco.
O Padre António Vieira foi um futurista mas naquele tempo não havia a blogosfera.
Assim sendo, o Dizer Bem tem contribuído para que cada um pense e intervenha, à sua maneira, através da crítica ou da apologia dos textos que apresenta à discussão, sem ter necessidade de ser politicamente incorrecto, rude, subserviente ou demasiado óbvio.